Encol para vítimas e leigos

Os Números da Encol

IV. OS NÚMEROS DA ENCOL

Durante anos, o autofinanciamento das obras produ-ziu vultoso rendimento financeiro pela administração do conjunto da poupança captada dos adquirentes, assim explicando-se o meteórico crescimento da ENCOL, até alcançar o pódio como a primeira construtora do país.

Com o autofinanciamento da construção e a conse-qüente possibilidade de movimentação financeira dos vultosos ativos mensal-mente arrecadados dos compradores, isso em tempos de inflação galopante, a ENCOL não só vendia cada vez mais, mas possuía recebíveis de curto, médio e longo prazo, que lhe serviam para garantir novos financiamentos, alavancando outros, ainda mais vultosos, e assim por diante, em um crescimento incessante da empresa.

Alardeando ter alcançado a conjugação perfeita das atividades de incorporar, construir e vender, realizadas simultaneamente * o que não é freqüente no mercado da construção civil * garantia aos seus clien-tes o completo domínio de cada situação.

De fato, a introdução de modernas técnicas de cons-trução inaugurou no mercado um padrão de qualidade superior, a que se relacio-nava uma produtividade excelente em relação à média geral de homens envolvi-dos na construção, diminuindo significativamente o desperdício, principalmente na espessura de revestimentos, reduzidos com tijolos de cimento de fabricação própria, e também no assentamento de pisos e no processo de colocação de portas e alizares pré-montados para serem encaixados, servindo estes melhora-mentos tecnológicos para justificar os preços praticados, cada vez mais competi-tivos em relação ao mercado.

Em 1993, a ENCOL ocupava a 31ª posição no ranking das 500 maiores empresas do país, com 31.305 unidades em construção, 85% delas vendidas, espalhadas em 38 cidades, gerando 30.113 empregos diretos, mas já negociava com notas fiscais "frias", praticava fraudes contábeis e sone-gava impostos no "esquema PC" desde o início do governo Collor (1990).

O chamado Plano Real, de março de 1994, sem dúvi-da, veio afetar drasticamente a inflação, reduzindo-a, em 1997, a menos de 5% (INPCr-IBGE), coisa que, aliás, se julgava impossível de acreditar àquela altura do Governo do Vice-Presidente Itamar Franco, quando foi implantado o plano ca-pitaneado pelo Ministro da Fazenda, seu sucessor na Presidência da República e, hoje, reeleito, Fernando Henrique Cardoso.

Como resultado, houve, em curto espaço de tempo, a perda da maior parte da receita auferida pela ENCOL. Para piorar, houve tam-bém um descasamento entre o índice dos custos da construção civil (INCC) com que se reajustavam as prestações dos mutuários * antes sempre maior do que os fatores de correção monetária do mercado financeiro em geral * e as somas efetivamente necessárias à continuação das obras, impossível de se tocar so-mente com os valores mensalmente recebidos dos adquirentes.

Mesmo assim, o balanço de 1994, divulgado em mar-ço de 1995 e publicado no Estado de São Paulo a 20 de maio daquele ano, mos-tra posição invejável, com um volume de adquirentes devendo R$ 1.906 milhões, mais de 50.000 unidades em construção e previsão de crescimento de 30% do lucro e do faturamento.

Nesse tempo, a companhia parecia sólida. Mas esta-va se formando a pirâmide de calote que acabou caindo e deixou inacabados 796 edifícios, prejudicou mais de 60 mil adquirentes de imóveis e deixou sem trabalho 20,5 mil operários da construção; não recolheu impostos e contribuições e acu-mulou dívidas com fornecedores, bancos e debenturistas no valor de 1,6 bilhões de reais, que crescem em R$ 800 mil a cada dia que passa.

Na verdade, a construtora estava sendo lentamente saqueada pelos seus administradores, sem nenhum freio, embora o mercado imobiliário, de há muito, comentasse a sua calamitosa situação, mesmo antes da intervenção dos Bancos credores em janeiro de 1997 - ver 1997 - Adiando a falência).

A Comissão de Valores Mobiliários - CVM, cuja mis-são é fiscalizar os balanços das sociedades anônimas, não fez nada para desco-brir o que de fato acontecia na empresa. Os balanços eram feitos, ano após ano, como se a ENCOL vivesse uma fase rósea, enganando debenturistas.

Mais estarrecedora, porém, é a maneira como evoluiu a crise, com o retardamento consciente do estado falencial em proveito próprio, inadmissível para uma empresa de grande porte e renome nacional.