Encol para vítimas e leigos

1995 - Terra Arrasada

VI. 1995 - TERRA ARRASADA

Vendo cair o véu e desnudar-se a sua verdadeira face, a ENCOL começou a negociar imóveis por valores muito abaixo dos prati-cados no mercado, pois precisava vender um número cada vez maior de unida-des para ter faturamento que lhe permitisse continuar construindo e pagando dí-vidas, isso enquanto ensaiava os últimos passos da empresa.

Enquanto os administradores da ENCOL adotavam na empresa essa política de "terra arrasada", retirando tudo o que podiam de seu patrimônio, Pedro Paulo provocou terremotos no mercado de vários Estados, para continuar a vender cada vez mais e, assim, atender ao problema de caixa da empresa e retardar a quebra.

Em Brasília, por exemplo, desde 1993 todos os seus concorrentes pararam de vender apartamentos, porque a ENCOL estava ofere-cendo imóveis com descontos de até 20%. Em Curitiba, normalmente havia de dois a três lançamentos de prédios por ano. A ENCOL em 1994 passou a lançar até vinte prédios de apartamentos, por ano, com preços até 15% mais baixos que a concorrência.

No Rio de Janeiro não foi diferente: a queda nos pre-ços chegou a 40% no final de 1994, com uma ampla campanha publicitária pro-clamando: NADA DE ENTRADA, NADA DE INTERMEDIÁRIAS, NADA NAS CHAVES !!!

Com o fim da inflação alta, o ciclo vicioso de prejuízos era óbvio e a falência iminente, mas foi propositadamente prolongada a agonia da empresa para dela extrair-se o máximo, até o bagaço.

Só para se ter uma idéia, em 1995, quando uma das mais tradicionais empresas de construção civil, a Gomes de Almeida Fernandes, faturou 280 milhões de dólares, a ENCOL vendeu mais de 1 bilhão de dólares. Nesse tempo, a companhia parecia sólida. Mas estava apenas aumentando a pi-râmide de calote que acabou caindo.

Em meados de 1995, o Banco Pactual foi convidado por Pedro Paulo a examinar a empresa e apontar uma saída. O banco analisou alguns números da companhia e contratou a Ernest & Young e a Trevisan para fazer uma auditoria que duraria dois meses.

A ENCOL logo tratou de enviar comunicados aos seus clientes, em 30 de outubro de 1995, afirmando que a empresa havia assi-nado uma parceria com o Banco Pactual. Na correspondência, a construtora afirmava que o Pactual teria dito que ''a ENCOL é uma empresa saudável e to-talmente viável''.

Dois meses depois, a auditoria anunciou ao Pactual que jamais conseguiria chegar a um diagnóstico, tamanha a baderna da empre-sa. Do ponto de vista administrativo, a ENCOL era um verdadeiro escândalo, ainda mais considerando o seu porte e objeto do comércio: POUPANÇA PARA CONSTRUÇÃO DE HABITAÇÕES.

Em dezembro de 1995, quando os apartamentos de quatro prédios em Campo Grande-MS já estavam vendidos, a ENCOL, desres-peitando o contrato-padrão, que admitia a hipoteca apenas para o caso de finan-ciamento para conclusão da obra, ofereceu-os como garantia de uma dívida junto ao INSS de R$ 9,6 milhões, razão pela qual a Procuradoria da República em Mato Grosso do Sul, acolheu representação dos adquirentes e entrou com ação civil pública pedindo o cancelamento da hipoteca.

De fato, a taxa próxima de 24% de inflação anual, re-gistrada em 1995, ainda mantinha o Brasil muito longe dos índices inflacionários dos países do Primeiro Mundo, mas representava um admirável avanço para o Brasil de antes do Plano Real.

Como reflexo que já se acentuava, de janeiro a julho de 1995, segundo levantamento nacional da Centralização de Serviços dos Ban-cos S/A (Serasa) foram requeridas 13,1 mil falências de empresas, 70% mais do que no mesmo período de 1994, e os pedidos de concordata haviam aumentado 241% no mesmo período.

Somente na cidade de São Paulo, por exemplo, entre janeiro e novembro de 1995 foram requeridas 8.830 falências, mais do que o do-bro dos pedidos registrados durante todo o ano de 94 (4.250). E os pedidos de concordatas (368), até novembro, ultrapassaram em mais de duas vezes o volu-me de requerimentos dos 12 meses de 94

Em Belo Horizonte * outro exemplo * foram 1.210 os pedidos de falência de empresas entre janeiro e novembro de 1995, 200% mais que todos os pedidos apresentados em 94. O número de concordatas pre-ventivas cresceu quase 300% de um ano para o outro.